É uma tarefa problemática pensar a tecnologia atual através da visão de Heidegger. Isso porque ele pensava em dois tipos tecnológicos, um pré-moderno (ou pré-industrial) e profundamente envolvido com a natureza - sendo parte dela, em certo sentido - e outro moderno e destacado da natureza. Nesse sentido ele vai chegar na noção de "Gestell", que, segundo José Carlos Vasconcelos e Sá, significa a essência da tecnologia moderna como algo autônomo em relação ao humano ("A crítica da técnica e da modernidade em Heidegger e McLuhan", p. 127). Desse cenário surge então a noção de 'bestand', que, ainda segundo Sá, é como Heidegger representa o resultado dessa "transcendência" da tecnologia em relação ao humano, qual seja, o de um mundo habitado por "objetos sem valor em si, excetuando o uso que se lhes possa dar, (...) objetos produzidos sem individualidade real - no fundo, objetos degradados do humano" (idem, 127).
Novamente pensando através da noção de rede, essa divisão que o filósofo faz entre "natureza" de um lado e "tecnologia" do outro perde a força. Em certo sentido, sendo o homem em grande medida ainda um animal, tudo o que ele faz acaba sendo parte, em maior ou menor medida, do que se chama normalmente de "natureza". Além disso, se pensarmos a noção de tecnologia de uma forma mais ampla, alicerçada pela noção de rede, ela está em tudo, desde a produção de uma fogueira (para a qual se usa a tecnologia das mãos etc) até os computadores. Em artigo recente, o escritor Affonso Romano de Santanna (em seu livro "Ler o mundo") afirmou que outro exemplo de tecnologia é a linguagem. E a partir dessa ótica teremos uma infinidade de outros exemplos.
Outra questão importante levantada pela pergunta é a da produção de imagens. O mundo atual beira a 'vertigem' por conta da produção incessante de novas imagens, para a qual a capacidade humana não estaria preparada. A dúvida que surge é: alguma vez o ser humano esteve pronto para receber a quantidade de imagens que o mundo produz? De fato, nas épocas pré-computador, a quantidade de informações que chegava a uma pessoa era menor. Mas era menor apenas por conta das formas tradicionais de controle. Isso não significa que não existisse potencialmente uma quantidade imensa de imagens. Nos parece que, de uma forma ou de outra, as pessoas hoje utilizam os seus filtros - até porque, novamente relembrando Funes, o conto de Borges, trata-se de fato de uma questão de limite, já que é impossível pensar em várias coisas ao mesmo tempo) -, que agem como as formas de controle mais antigas.
Sob esta perspectiva, não podemos escapar de considerar a visão de Heidegger algo fatalista - e, arriscaria dizer, outro algo "antropocêntrica" (ainda que ele não dispusesse da noção de rede, por exemplo, o que minimiza esse ponto). É claro que os jogos de poder não acabaram e isso significa que não se pode cair na posição oposta, de uma visão absolutamente otimista em relação ao que se chama de tecnologia. Nesse sentido inclusive cabe a colocação de Sá, quando afirma que "a análise de Heidegger procura (...) tornar visível o equívoco persistente na tradição filosófica ocidental em considerar a técnica algo neutro e passível de controle" (idem, 128). Mas não para concluir que ela seja um ente autônomo e que rebaixaria o homem a um papel secundário. Nos parece que o processo é mais heterogêneo e "mesclado", a tecnologia fazendo parte do que é humano da mesma forma que o contrário.
E aí temos a questão da arte. Nesse contexto, vale citar a transformática. Nela, a
noção de “arte” surge sublinhada no radical ART, presente em termos como
“artifício", "artificial", "artificialismo", "artista", "artefato" e, especialmente,
"articulação”. Assim sendo, noções como “criação” e “arte” estão
ligadas, aqui, à ideia de articulação,
ou seja, de produção de novas 'transas', baseadas sempre na lógica do revirão, e portanto, na lógica da
suspensão das oposições e na consideração e produção do maior número possível
de possibilidades, em qualquer situação. Esse
deslocamento, que funciona tendo como referência o revirão,
caminha sempre no sentido da produção de novos artifícios, portanto de novas formas de arte, que permitam a flexibilização das
duras oposições que invariavelmente ocorrem no nível sintomático do cotidiano e
da produção cultural humana – como, por exemplo, certeza-incerteza,
verdade-mentira, fato-ficção, arte-realidade etc. Nesse sentido, toda arte, para a transformática, é, no mesmo
processo, um ato analítico. É quando a formação acessa
o revirão e flexibiliza as diferenças
a um nível de indiferença radical, o
que significa que a atividade se orienta pelo contato não apenas com os focos,
mas também com a extensa zona franjal que constitui a formação como rede.
Partindo desses pressupostos, a visão de Heidegger ganha ainda mais o contorno do fatalismo. O "enquadramento" passa a ser não o da tecnologia em relação ao ser humano, mas sim o das formações excessivamente recalcadas da sintomática cotidiana, ou seja, daquelas que tenham dificuldade de variar as suas "transas" - e, portanto, novas "articulações" -, em relação às possibilidades de flexibilização do artificialismo. Para a transformática, o "Gestell" estaria aí. E aquilo que se chama de tecnologia passa a ser apenas mais um pedaço dentro desse enredo - e não um protagonista que estaria orquestrando, de forma transcendente, uma "degradação do humano" (como diz Sá à p. 127).
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Atenção e Há-tensão das formações contemporâneas
A riqueza do trabalho de Jonathan Crary reside no fato de que ele transita de forma cuidadosa pela ambivalência do tema que escolheu pra desenvolver, o tema dos mecanismos de atenção, notadamente no século XIX e na virada deste para o século XX. Ou seja, ainda que aponte para os aspectos disciplinadores e espetaculares da virada da modernidade (o que mostra sua ligação com as ideias de Foucault e Debord, respectivamente), ele não deixa de citar constantemente o outro lado, ou seja, as possibilidades contraindutivas presentes no fenômeno que ele designa como "atenção".
Vale colocar que, mesmo dentro desta perspectiva "bipolar", que nos interessa, o autor adota a 'subjetividade' como um referente frequente, o que parece ser inescapável diante da escolha da "atenção" como tema central de análise. Não é a nossa, que já que ele não escapa de seguidas vezes trabalhar com uma divisão entre "mundo exterior" e "experiência perceptiva interna" que não cabe, por exemplo, na noção de rede - assim como também não se encaixa com a transformática, que também pensa o que já se nomeou "sujeito" ou "subjetividade" como uma "rede de formações", que seriam aglomerados simbólicos cambiantes e em constante relação com outros aglomerados. Essa divergência, ainda que deva ser colocada, não apaga entretanto a importância de várias questões levantadas pelo autor.
Uma dessas questões ele coloca quando diz que "a lógica dinâmica do capital começou a enfraquecer de maneira drástica qualquer estrutura estável ou durável da percepção" (35). Ele sugere então, numa afirmação algo foucaultiana, que "essa lógica impôs ou procurou impor simultaneamente um regime disciplinar de atenção" (idem). Crary faz então um passeio pelo debate teórico a respeito da atenção e temas adjuntos, passando por um grupo de autores bem amplo, que vai desde Kant, Schpenhauer e Freud até Foucault, Debord e Hannah Arendt, para situar tanto as visões que pensavam a atenção como um mecanismo de defesa repressivo e disciplinar contra o "perigo" da livre associação (que remete a certos princípios freudianos, como o do superego e da neurose), quanto aquelas que, ao contrário, viam na atenção uma possibilidade daquilo que o autor chama de "novas condições de subjetividade" (47). Por isso ele cita "as relações inconstantes entre o poder institucional/discursivo, de um lado, e uma composição de forças que resistia de maneira inerente à estabilização e ao controle de outro" (idem). Em outras palavras, a atenção como 'fomento da passividade e do automatismo' de um lado, e como 'estratégia de resistência voluntária' de outro ("a atenção como expressão da vontade consciente do sujeito autônomo" (48)).
O texto tem o mérito de conter um apanhado histórico e crítico e, no nosso entendimento, chega em seu ápice quando pondera que a atenção traz em si as condições para sua própria desintegração - "o estado de atenção [é] na verdade inseparável do de distração, devaneio, dissociação e transe" (70). E isso nos traz à pergunta, ou seja, ao mundo contemporâneo.
Em nossa concepção, não há uma diferença estrutural que distingua a atenção no mundo moderno e a atenção no mundo contemporâneo. Na verdade, nos parece que se trata, fundamentalmente, do embate histórico entre o foco e a flexibilização da experiência. Na Idade Média, por exemplo, certamente esse embate se dava de forma sistemática no jogo das estratégias religiosas para angariar a 'atenção' dos fieis (no que um estudo mais detalhado sobre os rituais e praxes da liturgia pode ajudar bastante a desenhar). Mesmo com toda a força da imposição do poder católico, isso certamente não apagava a existência de "experiências flexíveis" no âmbito da vida particular de cada pessoa que lá vivia. A diferença maior da nossa época está, talvez, no fato de que a modernidade, ao contrário das épocas tradicionais, eleva a "experiência flexível" ao status de eixo, o que automaticamente empurra as tentativas de controle para o campo da sugestão e não mais da força "absolutista" (ainda que esta sobreviva como última instância, estritamente policial).
O texto de Crary nos trouxe a lembrança do conto de Borges, "Funes, o memorioso", a história de um homem que não consegue mais esquecer e acaba escravo dos detalhes. É um conto que está carregado da mesma ambivalência que impregna o artigo de Crary: o foco excessivo nos leva ao ápice da repetição mecânica. O "esquecimento" (que Borges traz como eixo e Crary cita quando fala de Nietzsche) acaba sendo uma parte inescapável de qualquer "foco", o que aparece na transformática quando esta trabalha com a noção de 'formações', formadas por pólos, focos e franjas. O campo das franjas, tudo aquilo que existe na rede mais ampla daquela formação, pode ser pensado como aquilo que reside no entorno de toda "atenção" (ou foco), ou seja, o que "esquecemos" voluntariamente para poder exercitar o enquadramento pontual de alguma coisa. Nesse sentido, o foco é um ponto de 'redução' que recalca o restante das possibilidades, para poder trabalhar temporariamente num núcleo de situação que, apesar do recalque, não ignora a existência das franjas (ao contrário, trabalha com elas como parte constitutiva do processo). O que em certo sentido mescla os dois pólos da atenção trazidos por Crary: associação e dissociação no mesmo embalo.
Por último, cabe citar a crítica que o autor faz à televisão e ao computador que, segundo ele, "apesar de convergirem para uma operação maquinal única, são processos antinômades que fixam e estriam. São métodos para controlar a atenção por meio de compartimentalização e sedentarização, tornando os corpos controláveis e úteis, ao mesmo tempo em que geram a ilusão de escolha e 'interatividade'" (101). Essa crítica diz respeito ao mundo contemporâneo e pode fechar esta resenha trazendo a questão chave: os mecanismos de atenção na sociedade contemporânea. Há o TDA (Transtorno de Déficit de Atenção) que o autor cita - e que, apesar de demonstrar uma dificuldade inegável do exercício do rigor ("atenção") por parte dos estudantes atuais, pode ser também um aspecto que ilustra de forma significativa a falência dos projetos educacionais institucionais que trazemos desde o iluminismo pra cá -, há também o fenômeno do marketing. O marketing parece ser parte fundamental da ambivalência descrita pelo autor em sua tese: por um lado, aponta para o reinado das mensagens curtas e que demandam um mínimo de cuidado reflexivo (o importante é seduzir, atrair a 'atenção' para o consumo rápido e sem maiores questionamentos); entretanto, por outro lado, a própria existência do marketing parece apontar para o fato de que estamos numa época na qual os mecanismos de controle e disciplina existem num formato razoavelmente flexível. Ora, se preciso criar uma estratégia de convencimento que atraia a atenção do consumidor, é porque essa atenção não existe garantida a priori - o que aponta para a existência de um jogo e não de um sistema de controle. Resta refletir até que ponto esse jogo não acaba resultando numa lógica que empobrece o diálogo dos focos com suas franjas - o que acaba em formações excessivamente recalcadas por excesso de foco. Sem entretanto cair no pólo oposto, de uma crítica da tecnologia como um instrumento que carregue esse empobrecimento como essência. Avaliar o tipo de atenção que está em jogo em cada situação é o mais importante, para não estancar em nenhum dos dois lados.
Vale colocar que, mesmo dentro desta perspectiva "bipolar", que nos interessa, o autor adota a 'subjetividade' como um referente frequente, o que parece ser inescapável diante da escolha da "atenção" como tema central de análise. Não é a nossa, que já que ele não escapa de seguidas vezes trabalhar com uma divisão entre "mundo exterior" e "experiência perceptiva interna" que não cabe, por exemplo, na noção de rede - assim como também não se encaixa com a transformática, que também pensa o que já se nomeou "sujeito" ou "subjetividade" como uma "rede de formações", que seriam aglomerados simbólicos cambiantes e em constante relação com outros aglomerados. Essa divergência, ainda que deva ser colocada, não apaga entretanto a importância de várias questões levantadas pelo autor.
Uma dessas questões ele coloca quando diz que "a lógica dinâmica do capital começou a enfraquecer de maneira drástica qualquer estrutura estável ou durável da percepção" (35). Ele sugere então, numa afirmação algo foucaultiana, que "essa lógica impôs ou procurou impor simultaneamente um regime disciplinar de atenção" (idem). Crary faz então um passeio pelo debate teórico a respeito da atenção e temas adjuntos, passando por um grupo de autores bem amplo, que vai desde Kant, Schpenhauer e Freud até Foucault, Debord e Hannah Arendt, para situar tanto as visões que pensavam a atenção como um mecanismo de defesa repressivo e disciplinar contra o "perigo" da livre associação (que remete a certos princípios freudianos, como o do superego e da neurose), quanto aquelas que, ao contrário, viam na atenção uma possibilidade daquilo que o autor chama de "novas condições de subjetividade" (47). Por isso ele cita "as relações inconstantes entre o poder institucional/discursivo, de um lado, e uma composição de forças que resistia de maneira inerente à estabilização e ao controle de outro" (idem). Em outras palavras, a atenção como 'fomento da passividade e do automatismo' de um lado, e como 'estratégia de resistência voluntária' de outro ("a atenção como expressão da vontade consciente do sujeito autônomo" (48)).
O texto tem o mérito de conter um apanhado histórico e crítico e, no nosso entendimento, chega em seu ápice quando pondera que a atenção traz em si as condições para sua própria desintegração - "o estado de atenção [é] na verdade inseparável do de distração, devaneio, dissociação e transe" (70). E isso nos traz à pergunta, ou seja, ao mundo contemporâneo.
Em nossa concepção, não há uma diferença estrutural que distingua a atenção no mundo moderno e a atenção no mundo contemporâneo. Na verdade, nos parece que se trata, fundamentalmente, do embate histórico entre o foco e a flexibilização da experiência. Na Idade Média, por exemplo, certamente esse embate se dava de forma sistemática no jogo das estratégias religiosas para angariar a 'atenção' dos fieis (no que um estudo mais detalhado sobre os rituais e praxes da liturgia pode ajudar bastante a desenhar). Mesmo com toda a força da imposição do poder católico, isso certamente não apagava a existência de "experiências flexíveis" no âmbito da vida particular de cada pessoa que lá vivia. A diferença maior da nossa época está, talvez, no fato de que a modernidade, ao contrário das épocas tradicionais, eleva a "experiência flexível" ao status de eixo, o que automaticamente empurra as tentativas de controle para o campo da sugestão e não mais da força "absolutista" (ainda que esta sobreviva como última instância, estritamente policial).
O texto de Crary nos trouxe a lembrança do conto de Borges, "Funes, o memorioso", a história de um homem que não consegue mais esquecer e acaba escravo dos detalhes. É um conto que está carregado da mesma ambivalência que impregna o artigo de Crary: o foco excessivo nos leva ao ápice da repetição mecânica. O "esquecimento" (que Borges traz como eixo e Crary cita quando fala de Nietzsche) acaba sendo uma parte inescapável de qualquer "foco", o que aparece na transformática quando esta trabalha com a noção de 'formações', formadas por pólos, focos e franjas. O campo das franjas, tudo aquilo que existe na rede mais ampla daquela formação, pode ser pensado como aquilo que reside no entorno de toda "atenção" (ou foco), ou seja, o que "esquecemos" voluntariamente para poder exercitar o enquadramento pontual de alguma coisa. Nesse sentido, o foco é um ponto de 'redução' que recalca o restante das possibilidades, para poder trabalhar temporariamente num núcleo de situação que, apesar do recalque, não ignora a existência das franjas (ao contrário, trabalha com elas como parte constitutiva do processo). O que em certo sentido mescla os dois pólos da atenção trazidos por Crary: associação e dissociação no mesmo embalo.
Por último, cabe citar a crítica que o autor faz à televisão e ao computador que, segundo ele, "apesar de convergirem para uma operação maquinal única, são processos antinômades que fixam e estriam. São métodos para controlar a atenção por meio de compartimentalização e sedentarização, tornando os corpos controláveis e úteis, ao mesmo tempo em que geram a ilusão de escolha e 'interatividade'" (101). Essa crítica diz respeito ao mundo contemporâneo e pode fechar esta resenha trazendo a questão chave: os mecanismos de atenção na sociedade contemporânea. Há o TDA (Transtorno de Déficit de Atenção) que o autor cita - e que, apesar de demonstrar uma dificuldade inegável do exercício do rigor ("atenção") por parte dos estudantes atuais, pode ser também um aspecto que ilustra de forma significativa a falência dos projetos educacionais institucionais que trazemos desde o iluminismo pra cá -, há também o fenômeno do marketing. O marketing parece ser parte fundamental da ambivalência descrita pelo autor em sua tese: por um lado, aponta para o reinado das mensagens curtas e que demandam um mínimo de cuidado reflexivo (o importante é seduzir, atrair a 'atenção' para o consumo rápido e sem maiores questionamentos); entretanto, por outro lado, a própria existência do marketing parece apontar para o fato de que estamos numa época na qual os mecanismos de controle e disciplina existem num formato razoavelmente flexível. Ora, se preciso criar uma estratégia de convencimento que atraia a atenção do consumidor, é porque essa atenção não existe garantida a priori - o que aponta para a existência de um jogo e não de um sistema de controle. Resta refletir até que ponto esse jogo não acaba resultando numa lógica que empobrece o diálogo dos focos com suas franjas - o que acaba em formações excessivamente recalcadas por excesso de foco. Sem entretanto cair no pólo oposto, de uma crítica da tecnologia como um instrumento que carregue esse empobrecimento como essência. Avaliar o tipo de atenção que está em jogo em cada situação é o mais importante, para não estancar em nenhum dos dois lados.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Atenção em fluxo contínuo
A atenção e a falta dela foram
problematizadas desde que o capitalismo passou a ditar a
especialização como modo de acesso à vida urbana e aos meios de
produção. Esse é o argumento de Jonathan Crary, historiador da arte e
autor de Suspensões da Percepção, que propôs uma reflexão
sobre a temática "atenção" segundo a
escola foucaultiana. Desse modo, treinar o foco perceptivo do
indivíduo, entre outras coisas, estaria relacionado ao controle e à
disciplina, requisitos fundamentais para o aprendizado aos moldes liberais: letramento, raciocínio lógico e empreendedorismo.
Crary critica o senso comum de que a fragmentação da atenção e a descentralização do sujeito são fenômenos contemporâneos à disseminação das tecnologias de informação e comunicação. Para o autor, o conceito de atenção está intimamente ligado ao de percepção, sendo esse constantemente alterado pela história dos meios. Quando a representação da imagem passou a desafiar a ideia de um estado natural das coisas (a percepção passa a ser o resultado de uma fisiologia específica, o que faz dela variável e duracional), a didática do positivismo dá lugar à valoração da subjetividade.
Subjetividade essa que apenas se
intensificou com o preceito fundamental (se é que podemos
considerá-lo assim) da pós-modernidade, o antifundamentalismo. Se a
percepção sobre as possibilidades do mundo e do homem alteram os
meios, os quais, por sua vez, modificam radicalmente o comportamento
humano em todos os aspectos da vida social, como conciliar a rigidez
do sistema econômico e a falibilidade da política com a consciência
cada vez mais dilatada dos cidadãos?
É no rastro reflexivo de Crary que se
acrescenta o didaticismo de outro autor, preocupado com o
multidirecionamento da atenção dos indivíduos. Howard Rheingold,
em seu livro: Net Smart: how to thrive online, analisa o comportamento humano frente ao desafio de ter
uma participação ativa e consciente (o autor utiliza o termo
"mindful") enquanto conectados. Sem cair na historicidade da percepção, Rheingold centra seu estilo no praticismo. Net Smart pode ser lido como um manual, um guia para o exercício da cidadania digital e sucesso no equilíbrio entre foco e dispersão.
Ao enfatizar que a atenção pode ser treinada, Rheingold assume uma postura de indiferença quanto às críticas ao sistema, nas quais se baseia a obra de Cary. Como o primeiro narra, a própria experiência de professor de alunos conectados o tempo todo lhe causou uma inquietação. Estariam aquelas pessoas menos presentes, ou presentes de maneira diferente, em vários lugares ao mesmo tempo? Talvez essa seja a pergunta que vale a pena ser investigada, mas Rheingold se concentra na explanação de técnicas de adequação do comportamento multitarefa aos padrões escolares, sociais e profissionais. Já Crary visiona a relação dos seres com suas tecnologias da seguinte maneira: "será uma colcha de retalhos de efeitos flutantes em que indivíduos e grupos continuamente reconstituem a si mesmos" (tradução livre da citação, p. 370).
No entanto, é compreensível a estratégia de Rheingold frente ao discurso científico. Esse, até onde foram as investigações de Net Smart, identifica o cérebro humano como um processador de um único núcleo, ou seja, segundo essa metáfora, estaríamos preparados para desenvolver bem apenas uma tarefa de cada vez. Sob esse mesmo preceito está a escola que preza pelo aprendizado subdividido em disciplinas, com pouco diálogo entre elas, continuando a se distanciar da percepção da "geração Y" sobre o mundo, onde tudo se conecta com tudo. Por mais que as pesquisas possam realmente revelar uma delimitação biológica, deixa-se de lado uma questão fundamental: a diacronia dos regimes formais em relação às possibilidades reais e presentes de aquisição de conhecimento e de formas de relacionamento, seja com o outro ou com o próprio corpo.
Avançando nas discussões sobre o tema, cabe elaborar, a partir do ponto de vista dos dois autores, uma terceira via de raciocínio. Em Suspensões da Percepção, Crary lamenta a descontinuidade do interesse geral por pesquisas com hipnose, que no século XIX revelaram a impressionante capacidade da mente de suspenção temporal e espacial, ao mesmo tempo do exercício de profunda concentração. Em prol de um reavivamento empírico, e por hora este parece um questionamento interessante, por mais que as presentes pesquisas sejam mais ou menos categóricas em limitar a capacidade do cérebro de adaptação aos nossos hábitos cada vez mais simultâneos e fugazes, o que dizer da fisiologia daqueles que já nasceram em ambientes altamente interativos? Estarão esses melhor preparados para lidar com múltiplas demandas de atenção ao mesmo tempo, sem com isso sofrer prejuízo cognitivo em cada uma delas?
É de se imaginar que, se uma pessoa como eu for submetida a um teste sobre o quão bem ela se sai diante de múltiplas tarefas, é provável que se saia mal, pois durante a maior parte da vida terá sido acostumada a trabalhar bem apenas com o foco unidirecional, pois esse foi o modo de alfabetização nas décadas de 1980 e 1990. Não só na escola, mas nas famílias onde, citando apenas um exemplo, o costume de não ligar a TV durante as refeições também revelava a preocupação com uma certa presença "espiritual" centrada em um só momento.
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| Cenas do filme The Switch (2010), em que o personagem Wally (Jason Bateman) se irrata com o zapping de Sebastian (Thomas Robinson) |
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Multitasking: mitos e mecanismos de controle
Multitasking. Esta parece ser a palavra-chave deste início de Século XXI. Estar em um lugar e exercer apenas uma tarefa, ter atenção para apenas um fato parece ser algo ultrapassado, nonsense, totalmente fora da realidade. Se a Internet já nos aproxima de toda e qualquer informação, principalmente com a possibilidade dada pelo Google com seu modelo de pesquisa, os aparelhos móveis potencializaram a exigência desta nova qualidade.
Porém, como o autor Rheingold ressalta no primeiro capítulo de seu livro Net Smart - How to Thrive Online, é muito improvável que um ser humano consiga realmente dedicar exatamente a mesma atenção para dois focos completamente distintos. O autor cita diversas pesquisas realizadas por neurocientistas e outros profissionais da saúde que constatam os resultados que ele mesmo havia notado entre seus alunos na sala de aula. Ele inclusive dá conselhos, os quais o próprio autor testou, para conseguir controlar as distrações tentadoras do mundo contemporâneo para que possa ter controle sobre sua atenção. Voltaremos a isto posteriormente.
Mas, se a atenção não pode ser múltipla, o que então nos dá a sensação de sermos multitasking?
| Ilustração do livro Net Smart: How to Thrive Online, e que mostra a necessidade de se" estar atento a estar atento". |
Na verdade, nossa atenção é fragmentada. Ao desviar os olhos de um interlocutor para a tela do seu tablet, há uma perda significativa da atenção dada ao amigo, professor, colega, chefe a sua frente para o conteúdo que está ali. E isto nos dá a falsa sensação de que estamos realmente fazendo duas coisas ao mesmo tempo. Porém, não são todas as pessoas que se sentem confortáveis com esta falsa sensação: não é a toa que o uso indiscriminado de medicamentos para tratamento de TDAH aumentou drasticamente nos últimos anos. Iludidos por um discurso de que pessoas normais conseguem se concentrar perfeitamente em algo e não ter a sua atenção desviada por outras coisas faz com que estudantes, concurseiros, pesquisadores, entre outras pessoas que de alguma forma exercem trabalhos intelectuais acabem se rendendo ao uso de Ritalina, por exemplo.
Como todo discurso, há por trás dele intenções que podem estar nítidas ou não para a maioria das pessoas. Neste caso, que parece que não, é preciso ficar atento, principalmente pesquisadores, para as reais razões de se alimentar que é necessário ser alguém capaz de dar múltipla atenção a diferentes estímulos ambientais (música, filme, telefone tocando, mensagens no Whatsapp, olhar a lista de e-mails, ver atualizações do Facebook, e por aí afora).
Atenção como forma de controle e disciplina
Crary, no primeiro capítulo do livro Suspensões da Percepção trata também sobre atenção. O autor também afirma que as percepções se modificam com as novas tecnologias - afinal, são novos tipos de signos que entram em contato com a mente interpretadora, que anseia por eles, por serem instigantes, diferentes, atraentes. A partir deste novo paradigma tecnológico, perde-se o domínio da visão como forma de comprovar a percepção sensorial: agora ver, ouvir, cheirar, sentir, tocar, enfim, todo estímulo aos sentidos é uma prova da existência do objeto.
Posteriormente ele irá trazer Foucault e a sociedade disciplinar, afirmando que ela também é uma forma de disciplinar a sociedade. Mais do que isso, a atenção é um instrumento não só de controle, mas também de vigilância do ser humano.
Quem possui domínio sobre a atenção de determinado ser, consegue exercer controle sobre sua forma até mesmo de apreender a percepção. Um exemplo simples: se uma plataforma como o Facebook atrai mais atenção do usuário do que qualquer outra rede social ou outra tarefa que pode ser realizada no ambiente virtual, ele consegue prender aquele usuário em seus protocolos (que muitas vezes operam justamente como mecanismos de controle sobre o que o usuário pode e não pode fazer, por trás de uma falsa sensação de liberdade na rede).
A partir deste controle, que molda as ações dos seres na rede, quanto mais tempo ele destinar a dar atenção para determinada plataforma e não outra, mais informações ele poderá dar para os instrumentos de vigilância. Outro exemplo simples: um usuário que passe 20 minutos no Facebook sem interrupção tem mais chances de encontrar conteúdos que lhe agrade, páginas para curtir, fotos para compartilhar, comentários sobre suas visões de mundo e, consequentemente, repassando informações não só para as agências de marketing, mas também para setores governamentais. Ou seja, a disputa pela atenção é imprescindível neste contexto.
E, por isso a valorização do multitasking. Sabendo que é impossível que um usuário utilize apenas uma ferramenta neste meio, o discurso de ser "multitarefa" é vendido para que os usuários tentem destinar o mesmo tempo para diversas plataformas: Facebook, Google, YouTube, e-mail, enfim. Vale aqui a máxima "se não pode vencê-los, junte-se a eles".
A intenção como forma de contrabalancear o controle
Porém, da mesma forma que não há como simplesmente ficar totalmente offline, é possível utilizar-se de mecanismos para tentar driblar este controle e vigilância excessivos. Se você utilizar estes meios já sabendo a intenção deles pode, a partir disto, fazer uso da sua atenção fragmentada de forma consciente.
Exercícios de concentração e controle da atenção, tal como Rheingold mostra em seu livro podem ser boas estratégias para não ser seduzido facilmente por estes mecanismos, podendo ter o direito de "se libertar" delas quando desejar. Além disto, é possível "passar a perna" nestes mecanismos de vigilância. O uso consciente e intencional das redes sociais evitando a exposição em ações diretas e indiretas, o uso de criptografia em mensagens de e-mail e o uso de navegação anônima pode não evitar que estas ferramentas continuem apelando para quererem sua atenção, mas é uma forma de "sabotá-las", por assim dizer, demonstrando que não está tão suscetível assim a estes mecanismos.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Em busca de práticas que nos tornem atentos
Nas últimas décadas pudemos perceber uma mudança de comportamento e consumo, principalmente após a popularização do uso do computador e da internet. O surgimento de ferramentas on-line, redes sociais e diversas atrações que nos mantêm sempre conectados multiplicou a quantidade de informação e a velocidade com que esta informação circula. Tudo isso aumenta a possibilidade de distração do sujeito e cria, por outro lado, novas formas de percepção e aprendizado.
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| Jonathan Crary |
No livro Suspensões da Percepção, Jonathan Crary descreve como os estudos sobre a atenção atravessaram os séculos e ainda ocupam lugar importante nas pesquisas atuais. Faz um estudo aprofundado revisando conceitos criados por diversos pesquisadores desde o séc XIX buscando apontar o papel da atenção na modernização da subjetividade e comprovar como o que ouvimos, olhamos ou nos concentramos atentamente em nossas tarefas rotineiras, possui profundo caráter histórico, como se estivéssemos nos adaptando ao modo de prestar atenção.
O autor reforça o uso do termo percepção, para enfatizar a presença dos outros sentidos além da visão, como o tato e a audição e outras formas sensoriais, com o objetivo de demonstrar que a visão é apenas uma das partes de um corpo que pode ser capturado, modelado ou controlado por uma série de técnicas externas.
Segundo ele, há um interesse por parte do poder institucional para que a percepção possa garantir um sujeito produtivo, controlável, previsível, adaptável e que possa integrar-se socialmente, p.29. O autor fala também sobre os limites da atenção e das patologias derivadas da falta dela ou da impossibilidade em controlá-la, além do fracasso de inúmeras tentativas de controle da atenção ao longo do séc XIX.
Crary explica como a lógica da dinâmica do capital passou a impor um regime disciplinar de atenção, para o qual a desatenção passou a ser tratada como problema. Atribuía-se uma série de psicopatias ao funcionamento não convencional da atenção. “A atenção tornou-se assim, um modo impreciso de designar a capacidade relativa de um sujeito para isolar seletivamente certos conteúdos de um campo sensorial em detrimento de outros, a fim de manter um mundo ordenado e produtivo”.
A proliferação de produtos eletrônicos garante que a docilidade provocada no sujeito esteja sempre ligada a padrões de consumo. Ao mesmo tempo, assistimos à expansão de outro nível de tecnologia disciplinar - “o uso generalizado de potentes psicotrópicos como estratégia de controle comportamental”.
Isso tudo nos parece familiar nos dias de hoje, quando a atenção parece algo difícil de se manter diante de inúmeras possibilidades que se apresentam. Desta forma, surge a necessidade de descobrir maneiras de educar e controlar a atenção.
| Howard Rheingold |
No livro Net Smart: How to Thrive Online, este é objeto de estudo de Howard Rheingold, que passou a observar seus alunos, pesquisar sobre o tema e a procurar outros pesquisadores que também investigavam o assunto, com o objetivo de encontrar respostas que pudessem ajudar a compreender melhor o atual momento que atravessamos.
O autor analisa processos biológicos, cerebrais e cognitivos, além dos aspectos culturais, na tentativa de formar uma espécie de manual prático de comportamento, para garantir que estejamos atentos em nossa capacidade de controlar nossa atenção e evitar as distrações.
Rheingold acredita que podemos controlar a atenção através da regulação da respiração e da meditação, também por meio da definição de metas, pois a intenção e a manutenção do foco fazem com que tomemos decisões conscientes. Defende ainda a compreensão do processo de controle da atenção, através do controle executivo.
Há pontos comuns nos dois trabalhos, como a questão da atenção seletiva, quando vários processos sensoriais são inibidos para alcançar clareza, Rheingold descreve esta filtragem de estímulos como efeito Coquetel.
É importante descobrirmos a veracidade das informações, identificar e filtrar todo o lixo que recebemos e nos concentrarmos no que realmente for importante. Através da pesquisa dos autores podemos perceber a importância do desenvolvimento de uma literacia que nos auxilie a reconhecer armadilhas que possam estar por trás das tecnologias comunicacionais cada vez mais presentes em nosso dia dia.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Caiu na rede é peixe
A observação do pensador marxista Walter Benjamin sobre o
autor (e produtor de informações) estaria voltada para uma divisão de
interesses e autonomia, considerando as diferenças do escritor burguês e
escritor progressista. A liberdade de escrever o que quiser estaria delimitada
de acordo com a função e o nicho do autor. Referenciando Tretiakov, Benjamin
compara dois tipos de escritores, o operativo e o informativo: enquanto a
função do segundo é apenas informar, “a missão do primeiro é não relatar, mas
combater, não ser espectador, mas participante ativo”. Mergulhamos aqui em duas
grandes dicotomias de teorias do jornalismo, a do espelho e a construcionista
que trazem dois olhares distintos sobre produzir jornalismo. Por um lado, o
jornalismo deve ser imparcial e relator fiel da realidade, sem dispor de
opiniões, como se fosse um espelho a refletir exatamente o que acontece ali,
enquanto o construcionista deve atuar ativamente na construção de uma sociedade
melhor de forma a delimitar não apenas uma opinião, mas também nortear uma
série de reflexões que possam fazer o mundo um lugar melhor.
O que temos agora é uma pluralização gigante de “jornalistas”
construcionistas, que produzem conteúdo, promovem vínculos de identificação nos
meios alternativos, porque muitas vezes vários grupos de minorias não são
retratados como queriam na grande mídia. Sem entrar na grande questão
filosófica se o que o conteúdo informativo produzido livremente pelas milhares
de câmeras de celulares nas ruas, a fim de identificar um acontecimento social ou
um acidente é ou não é jornalismo, o que temos aqui são produtores
construcionistas de conteúdos que agem muitas vezes de forma operativa
(parafraseando Benjamin) na sociedade. Isso só é possível porque vivemos em uma
Cultura da Participação, onde todos são não só emissores de informação, mas
também produtores de conteúdo, seja ele ficcional ou não. Dentro dessa Cultura
da Participação, que é abarcada pela Cultura de Convergência, onde é possível
filmar com o celular e postar logo na rede, ficamos sabendo quase que
instantaneamente de incêndios, vemos vídeos produzidos pela galera da
comunidade sem corte e delimitação de estereótipos e temos acesso a materiais
ficcionais narrativos produzidos por fãs, que são muitas vezes até melhores do que
as propostas originais.
Sob o ponto de vista político, os meios digitais também
estão transformando os espectadores em participantes. Isso pode ser observado
nas manifestações de julho de 2013 e também em diversas outras questões do
dia-a-dia. Em relação às manifestações, graças às mídias alternativas e produção
de conteúdo independente dos próprios participantes vieram à tona novos olhares
sobre a realidade das manifestações, que a princípio a grande mídia não dava
total cobertura por questões políticas e pela amplitude do evento, onde seria
impossível captar tudo que acontecia no meio da multidão. Um bom exemplo é a atuação da Mídia Ninja nas
manifestações, que norteava através da cultura da participação um enfoque e
enquadramento diferente do convencional proporcionado pela grande mídia. Não só
a Mídia Ninja, mas também produções de conteúdos independentes de qualquer
pessoa que estivesse com o celular e observasse algo potencial de ser colocado
na rede era postado na internet e se tornava conteúdo informativo. Outros
exemplos rotineiros de como os espectadores também tornam participantes nos
meios digitais é que qualquer postagem pode auxiliar demais receptores e atuar
de forma a produzir uma crítica e buscar uma solução para um problema ao mesmo
tempo: informes sobre problemas relativos ao trânsito, enchentes, buracos nas
ruas, problemas no serviço público de saúde, corrupção, problemas relativos a
segurança. Embora esse espaço-rede propicie um mundo de noticias falsas,
fofocas ou verborragias desnecessária, é melhor ter uma rede livre do que algum
tipo de controle sobre ela. No mundo Big Brother, o que cai na rede é peixe e
muitas vezes esse peixe é saudável e não possui espinhos. Eles não só nadam em
um mar de informações, mas purificam e reproduzem conteúdo em um oceano onde
ocorrem poucas diferenciações de espécie: onde estamos todos juntos e
misturados.
domingo, 7 de dezembro de 2014
A tentativa de ser herói
http://drauziovarella.com.br/noticias/por-que-o-consumo-de-ritalina-aumentou-tanto-no-brasil/
A notícia acima apresenta um dado crítico: o aumento do consumo de ritalina – remédio para déficit de atenção – em 800% na última década no Brasil. Apesar do remédio ser muitas vezes “demonizado” por pessoas que acreditam que ter déficit de atenção é normal, enquanto na verdade é um distúrbio (desenvolvendo um discurso preconceituoso sobre os usuários do medicamento e seus motivos) a atenção na sociedade contemporânea muitas vezes é tratada como uma obrigação. O sinal de alerta e produção máxima é cobrado rotineiramente pela sociedade contemporânea, que é cada vez mais competitiva e privilegia as “multipessoas”, que dão conta de várias funções em uma mesma carga de trabalho. Hoje não basta mais ser bom na sua área: tem que ter noção de todas as outras, estar conectado 24 horas por dia, saber o que se passa no jornal, estar sempre disposto a fazer o que for solicitado, dar cambalhota se necessário e não esboçar nenhuma forma o cansaço físico e mental. Nesse cenário, desatenção é sinônimo de preguiça, falta de interesse e resulta em queda de produção. Na tentativa de ser herói muitas pessoas acabam recorrendo desnecessariamente ao medicamento Ritalina, que funciona como uma estimulante do sistema nervoso e deixa a pessoa mais concentrada (um remédio, como citado por Dráuzio Varella, controlado e destinado para pessoas que possuem distúrbio de déficit de atenção). Os resultados podem muito ruins para as pessoas que recorrem ao medicamento sem realmente precisar e a causa dessa mutilação hepática desnecessária é uma castração cultural sobre qual o mercado de trabalho determina como nível de exigência, beirando a perfeição: não bastar ser humano, tem que ser herói com super poderes e condições que vão além das físicas naturais dessa espécie. Em alguns pontos do livro “Suspensões da Percepção”, o autor Jonathan Crary trabalha com o termo “atenção” como modo de interlocução de poder e critica estudos voltados para o DDAH sem profundidade, onde a desatenção é considerada algo catastrófico e ainda cita Foucault: “Já sugeri as formas assumidas pela atenção como um objeto relacionado à organização e ao controle concreto da educação e do trabalho. Nesse sentido, ela é inseparável do que Foucault descreveu como instituições ‘disciplinares’, mas é uma inversão de seu modelo panóptico, em que o sujeito é objeto da atenção e da vigilância. Daí a ideia moderna da atenção como uma sinal de reconfiguração desses mecanismos disciplinares”. Ainda dentro da temática, o pesquisador Howard Rheingold ressalta que a “atenção” nunca está sozinha: a intenção sempre anda de mãos dadas com ela. Portanto, quanto mais atraente for o objeto para mim e maior interesse eu tiver sobre ele, maior será minha atenção. E se hoje há um maior interesse e “atenção” voltada para a internet, para as mídias sociais e para as tecnologias é porque as pessoas possuem algum tipo de interesse por esses temas e por suas possibilidades. Em um mundo bombardeado com informações para todos os lados, Rheingold dá dicas em seu texto “Net Smart” de como podemos focar nossa atenção no que é relevante dentro de um mar de informações, sobretudo na era digital. Para sobrevivermos as possíveis tsumanis de dados que possam surgir, é necessário, segundo Rheingold, que façamos uma seleção para o direcionamento da nossa atenção, ou ao contrário estaremos perdidos.
Ao contextualizar “atenção” e “intenção” como ideia proposta por Rheingold e o cenário contemporâneo que cobra o estado de alerta de super heróis com multipoderes, o que vemos é o aumento do consumo de Ritalina como uma ilustração da cobrança exacerbada de produção – o que vira uma bola de neve, pois o herói precisa da Ritalina, a Ritalina faz ele se tornar mais cansado e o cansaço resulta no próprio desinteresse. Será que se as metas não fossem diminuídas, ferramentas de motivação e participação fossem estabelecidas, o interesse e a atenção não voltariam sem a necessidade de “fonte mágica”? Pois é nessa terra contraditória de exigências que o super herói enfraquece e o homem desaparece.
A notícia acima apresenta um dado crítico: o aumento do consumo de ritalina – remédio para déficit de atenção – em 800% na última década no Brasil. Apesar do remédio ser muitas vezes “demonizado” por pessoas que acreditam que ter déficit de atenção é normal, enquanto na verdade é um distúrbio (desenvolvendo um discurso preconceituoso sobre os usuários do medicamento e seus motivos) a atenção na sociedade contemporânea muitas vezes é tratada como uma obrigação. O sinal de alerta e produção máxima é cobrado rotineiramente pela sociedade contemporânea, que é cada vez mais competitiva e privilegia as “multipessoas”, que dão conta de várias funções em uma mesma carga de trabalho. Hoje não basta mais ser bom na sua área: tem que ter noção de todas as outras, estar conectado 24 horas por dia, saber o que se passa no jornal, estar sempre disposto a fazer o que for solicitado, dar cambalhota se necessário e não esboçar nenhuma forma o cansaço físico e mental. Nesse cenário, desatenção é sinônimo de preguiça, falta de interesse e resulta em queda de produção. Na tentativa de ser herói muitas pessoas acabam recorrendo desnecessariamente ao medicamento Ritalina, que funciona como uma estimulante do sistema nervoso e deixa a pessoa mais concentrada (um remédio, como citado por Dráuzio Varella, controlado e destinado para pessoas que possuem distúrbio de déficit de atenção). Os resultados podem muito ruins para as pessoas que recorrem ao medicamento sem realmente precisar e a causa dessa mutilação hepática desnecessária é uma castração cultural sobre qual o mercado de trabalho determina como nível de exigência, beirando a perfeição: não bastar ser humano, tem que ser herói com super poderes e condições que vão além das físicas naturais dessa espécie. Em alguns pontos do livro “Suspensões da Percepção”, o autor Jonathan Crary trabalha com o termo “atenção” como modo de interlocução de poder e critica estudos voltados para o DDAH sem profundidade, onde a desatenção é considerada algo catastrófico e ainda cita Foucault: “Já sugeri as formas assumidas pela atenção como um objeto relacionado à organização e ao controle concreto da educação e do trabalho. Nesse sentido, ela é inseparável do que Foucault descreveu como instituições ‘disciplinares’, mas é uma inversão de seu modelo panóptico, em que o sujeito é objeto da atenção e da vigilância. Daí a ideia moderna da atenção como uma sinal de reconfiguração desses mecanismos disciplinares”. Ainda dentro da temática, o pesquisador Howard Rheingold ressalta que a “atenção” nunca está sozinha: a intenção sempre anda de mãos dadas com ela. Portanto, quanto mais atraente for o objeto para mim e maior interesse eu tiver sobre ele, maior será minha atenção. E se hoje há um maior interesse e “atenção” voltada para a internet, para as mídias sociais e para as tecnologias é porque as pessoas possuem algum tipo de interesse por esses temas e por suas possibilidades. Em um mundo bombardeado com informações para todos os lados, Rheingold dá dicas em seu texto “Net Smart” de como podemos focar nossa atenção no que é relevante dentro de um mar de informações, sobretudo na era digital. Para sobrevivermos as possíveis tsumanis de dados que possam surgir, é necessário, segundo Rheingold, que façamos uma seleção para o direcionamento da nossa atenção, ou ao contrário estaremos perdidos.
Ao contextualizar “atenção” e “intenção” como ideia proposta por Rheingold e o cenário contemporâneo que cobra o estado de alerta de super heróis com multipoderes, o que vemos é o aumento do consumo de Ritalina como uma ilustração da cobrança exacerbada de produção – o que vira uma bola de neve, pois o herói precisa da Ritalina, a Ritalina faz ele se tornar mais cansado e o cansaço resulta no próprio desinteresse. Será que se as metas não fossem diminuídas, ferramentas de motivação e participação fossem estabelecidas, o interesse e a atenção não voltariam sem a necessidade de “fonte mágica”? Pois é nessa terra contraditória de exigências que o super herói enfraquece e o homem desaparece.
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