sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Atenção em fluxo contínuo

A atenção e a falta dela foram problematizadas desde que o capitalismo passou a ditar a especialização como modo de acesso à vida urbana e aos meios de produção. Esse é o argumento de Jonathan Crary, historiador da arte e autor de Suspensões da Percepção, que propôs uma reflexão sobre a temática "atenção" segundo a escola foucaultiana. Desse modo, treinar o foco perceptivo do indivíduo, entre outras coisas, estaria relacionado ao controle e à disciplina, requisitos fundamentais para o aprendizado aos moldes liberais: letramento, raciocínio lógico e empreendedorismo.

Crary critica o senso comum de que a fragmentação da atenção e a descentralização do sujeito são fenômenos contemporâneos à disseminação das tecnologias de informação e comunicação. Para o autor, o conceito de atenção está intimamente ligado ao de percepção, sendo esse constantemente alterado pela história dos meios. Quando a representação da imagem passou a desafiar a ideia de um estado natural das coisas (a percepção passa a ser o resultado de uma fisiologia específica, o que faz dela variável e duracional), a didática do positivismo dá lugar à valoração da subjetividade.

Subjetividade essa que apenas se intensificou com o preceito fundamental (se é que podemos considerá-lo assim) da pós-modernidade, o antifundamentalismo. Se a percepção sobre as possibilidades do mundo e do homem alteram os meios, os quais, por sua vez, modificam radicalmente o comportamento humano em todos os aspectos da vida social, como conciliar a rigidez do sistema econômico e a falibilidade da política com a consciência cada vez mais dilatada dos cidadãos?

É no rastro reflexivo de Crary que se acrescenta o didaticismo de outro autor, preocupado com o multidirecionamento da atenção dos indivíduos. Howard Rheingold, em seu livro: Net Smart: how to thrive online, analisa o comportamento humano frente ao desafio de ter uma participação ativa e consciente (o autor utiliza o termo "mindful") enquanto conectados. Sem cair na historicidade da percepção, Rheingold centra seu estilo no praticismo. Net Smart pode ser lido como um manual, um guia para o exercício da cidadania digital e sucesso no equilíbrio entre foco e dispersão.

Ao enfatizar que a atenção pode ser treinada, Rheingold assume uma postura de indiferença quanto às críticas ao sistema, nas quais se baseia a obra de Cary. Como o primeiro narra, a própria experiência de professor de alunos conectados o tempo todo lhe causou uma inquietação. Estariam aquelas pessoas menos presentes, ou presentes de maneira diferente, em vários lugares ao mesmo tempo? Talvez essa seja a pergunta que vale a pena ser investigada, mas Rheingold se concentra na explanação de técnicas de adequação do comportamento multitarefa aos padrões escolares, sociais e profissionais. Já Crary visiona a relação dos seres com suas tecnologias da seguinte maneira: "será uma colcha de retalhos de efeitos flutantes em que indivíduos e grupos continuamente reconstituem a si mesmos" (tradução livre da citação, p. 370).

No entanto, é compreensível a estratégia de Rheingold frente ao discurso científico. Esse, até onde foram as investigações de Net Smart, identifica o cérebro humano como um processador de um único núcleo, ou seja, segundo essa metáfora, estaríamos preparados para desenvolver bem apenas uma tarefa de cada vez. Sob esse mesmo preceito está a escola que preza pelo aprendizado subdividido em disciplinas, com pouco diálogo entre elas, continuando a se distanciar da percepção da "geração Y" sobre o mundo, onde tudo se conecta com tudo. Por mais que as pesquisas possam realmente revelar uma delimitação biológica, deixa-se de lado uma questão fundamental: a diacronia dos regimes formais em relação às possibilidades reais e presentes de aquisição de conhecimento e de formas de relacionamento, seja com o outro ou com o próprio corpo. 

Avançando nas discussões sobre o tema, cabe elaborar, a partir do ponto de vista dos dois autores, uma terceira via de raciocínio. Em Suspensões da Percepção, Crary lamenta a descontinuidade do interesse geral por pesquisas com hipnose, que no século XIX revelaram a impressionante capacidade da mente de suspenção temporal e espacial, ao mesmo tempo do exercício de profunda concentração. Em prol de um reavivamento empírico, e por hora este parece um questionamento interessante, por mais que as presentes pesquisas sejam mais ou menos categóricas em limitar a capacidade do cérebro de adaptação aos nossos hábitos cada vez mais simultâneos e fugazes, o que dizer da fisiologia daqueles que já nasceram em ambientes altamente interativos? Estarão esses melhor preparados para lidar com múltiplas demandas de atenção ao mesmo tempo, sem com isso sofrer prejuízo cognitivo em cada uma delas?

É de se imaginar que, se uma pessoa como eu for submetida a um teste sobre o quão bem ela se sai diante de múltiplas tarefas, é provável que se saia mal, pois durante a maior parte da vida terá sido acostumada a trabalhar bem apenas com o foco unidirecional, pois esse foi o modo de alfabetização nas décadas de 1980 e 1990. Não só na escola, mas nas famílias onde, citando apenas um exemplo, o costume de não ligar a TV durante as refeições também revelava a preocupação com uma certa presença "espiritual" centrada em um só momento. 

Cenas do filme The Switch (2010)
Cenas do filme The Switch (2010), em que o personagem Wally (Jason Bateman) se irrata com o zapping de Sebastian (Thomas Robinson)
Sendo assim, o tempo e o interesse contínuo pelo tema trarão novas respostas. No entanto, para o que interessa ao tempo presente, cabe destacar que, goste-se ou não, a sociedade é seletiva, controladora e preza pela capacidade de desempenho. Se, biologicamente, ainda não somos capazes de conciliar a relação com nossos dispositivos com as formalidades exigidas pelo sistema educacional e mercadológico, resta o uso de estratégias. Treinar a atenção significa mais do que exercer a concentração para uma determinada tarefa. Segundo a abordagem gestáltica, o único modo de estar presente no mundo, com todo o potencial que ele oferece, é entrar no modo awareness, prestar atenção no ato de prestar atenção, a consciência do aqui e agora. Na prática, significa saber como funciona o sistema, usá-lo para um determinado objetivo e subvertê-lo quando não se precisa dele.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Multitasking: mitos e mecanismos de controle

Multitasking. Esta parece ser a palavra-chave deste início de Século XXI. Estar em um lugar e exercer apenas uma tarefa, ter atenção para apenas um fato parece ser algo ultrapassado, nonsense, totalmente fora da realidade. Se a Internet já nos aproxima de toda e qualquer informação, principalmente com a possibilidade dada pelo Google com seu modelo de pesquisa, os aparelhos móveis potencializaram a exigência desta nova qualidade.

Porém, como o autor Rheingold ressalta no primeiro capítulo de seu livro Net Smart - How to Thrive Online, é muito improvável que um ser humano consiga realmente dedicar exatamente a mesma atenção para dois focos completamente distintos. O autor cita diversas pesquisas realizadas por neurocientistas e outros profissionais da saúde que constatam os resultados que ele mesmo havia notado entre seus alunos na sala de aula. Ele inclusive dá conselhos, os quais o próprio autor testou, para conseguir controlar as distrações tentadoras do mundo contemporâneo para que possa ter controle sobre sua atenção. Voltaremos a isto posteriormente.

Mas, se a atenção não pode ser múltipla, o que então nos dá a sensação de sermos multitasking?
Ilustração do livro Net Smart: How to Thrive Online,
e que mostra a necessidade de se" estar atento a estar atento".

Na verdade, nossa atenção é fragmentada. Ao desviar os olhos de um interlocutor para a tela do seu tablet, há uma perda significativa da atenção dada ao amigo, professor, colega, chefe a sua frente para o conteúdo que está ali. E isto nos dá a falsa sensação de que estamos realmente fazendo duas coisas ao mesmo tempo. Porém, não são todas as pessoas que se sentem confortáveis com esta falsa sensação: não é a toa que o uso indiscriminado de medicamentos para tratamento de TDAH aumentou drasticamente nos últimos anos. Iludidos por um discurso de que pessoas normais conseguem se concentrar perfeitamente em algo e não ter a sua atenção desviada por outras coisas faz com que estudantes, concurseiros, pesquisadores, entre outras pessoas que de alguma forma exercem trabalhos intelectuais acabem se rendendo ao uso de Ritalina, por exemplo.

Como todo discurso, há por trás dele intenções que podem estar nítidas ou não para a maioria das pessoas. Neste caso, que parece que não, é preciso ficar atento, principalmente pesquisadores, para as reais razões de se alimentar que é necessário ser alguém capaz de dar múltipla atenção a diferentes estímulos ambientais (música, filme, telefone tocando, mensagens no Whatsapp, olhar a lista de e-mails, ver atualizações do Facebook, e por aí afora).

Atenção como forma de controle e disciplina

Crary, no primeiro capítulo do livro Suspensões da Percepção trata também sobre atenção. O autor também afirma que as percepções se modificam com as novas tecnologias - afinal, são novos tipos de signos que entram em contato com a mente interpretadora, que anseia por eles, por serem instigantes, diferentes, atraentes. A partir deste novo paradigma tecnológico, perde-se o domínio da visão como forma de comprovar a percepção sensorial: agora ver, ouvir, cheirar, sentir, tocar, enfim, todo estímulo aos sentidos é uma prova da existência do objeto.

Posteriormente ele irá trazer Foucault e a sociedade disciplinar, afirmando que ela também é uma forma de disciplinar a sociedade. Mais do que isso, a atenção é um instrumento não só de controle, mas também de vigilância do ser humano.

Quem possui domínio sobre a atenção de determinado ser, consegue exercer controle sobre sua forma até mesmo de apreender a percepção. Um exemplo simples: se uma plataforma como o Facebook atrai mais atenção do usuário do que qualquer outra rede social ou outra tarefa que pode ser realizada no ambiente virtual, ele consegue prender aquele usuário em seus protocolos (que muitas vezes operam justamente como mecanismos de controle sobre o que o usuário pode e não pode fazer, por trás de uma falsa sensação de liberdade na rede). 

A partir deste controle, que molda as ações dos seres na rede, quanto mais tempo ele destinar a dar atenção para determinada plataforma e não outra, mais informações ele poderá dar para os instrumentos de vigilância. Outro exemplo simples: um usuário que passe 20 minutos no Facebook sem interrupção tem mais chances de encontrar conteúdos que lhe agrade, páginas para curtir, fotos para compartilhar, comentários sobre suas visões de mundo e, consequentemente, repassando informações não só para as agências de marketing, mas também para setores governamentais. Ou seja, a disputa pela atenção é imprescindível neste contexto.

E, por isso a valorização do multitasking. Sabendo que é impossível que um usuário utilize apenas uma ferramenta neste meio, o discurso de ser "multitarefa" é vendido para que os usuários tentem destinar o mesmo tempo para diversas plataformas: Facebook, Google, YouTube, e-mail, enfim. Vale aqui a máxima "se não pode vencê-los, junte-se a eles". 

A intenção como forma de contrabalancear o controle

Porém, da mesma forma que não há como simplesmente ficar totalmente offline, é possível utilizar-se de mecanismos para tentar driblar este controle e vigilância excessivos. Se você utilizar estes meios já sabendo a intenção deles pode, a partir disto, fazer uso da sua atenção fragmentada de forma consciente. 

Exercícios de concentração e controle da atenção, tal como Rheingold mostra em seu livro podem ser boas estratégias para não ser seduzido facilmente por estes mecanismos, podendo ter o direito de "se libertar" delas quando desejar. Além disto, é possível "passar a perna" nestes mecanismos de vigilância. O uso consciente e intencional das redes sociais evitando a exposição em ações diretas e indiretas, o uso de criptografia em mensagens de e-mail e o uso de navegação anônima pode não evitar que estas ferramentas continuem apelando para quererem sua atenção, mas é uma forma de "sabotá-las", por assim dizer, demonstrando que não está tão suscetível assim a estes mecanismos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Em busca de práticas que nos tornem atentos

Nas últimas décadas pudemos perceber uma mudança de comportamento e consumo, principalmente após a popularização do uso do computador e da internet. O surgimento de ferramentas on-line, redes sociais e diversas atrações que nos mantêm sempre conectados multiplicou a quantidade de informação e a velocidade com que esta informação circula. Tudo isso aumenta a possibilidade de distração do sujeito e cria, por outro lado, novas formas de percepção e aprendizado.

Jonathan Crary
No livro Suspensões da Percepção, Jonathan Crary descreve como os estudos sobre a atenção atravessaram os séculos e ainda ocupam lugar importante nas pesquisas atuais. Faz um estudo aprofundado revisando conceitos criados por diversos pesquisadores desde o séc XIX buscando apontar o papel da atenção na modernização da subjetividade e comprovar como o que ouvimos, olhamos ou nos concentramos atentamente em nossas tarefas rotineiras, possui profundo caráter histórico, como se estivéssemos nos adaptando ao modo de prestar atenção.

O autor reforça o uso do termo percepção, para enfatizar a presença dos outros sentidos além da visão, como o tato e a audição e outras formas sensoriais, com o objetivo de demonstrar que a visão é apenas uma das partes de um corpo que pode ser capturado, modelado ou controlado por uma série de técnicas externas.

Segundo ele, há um interesse por parte  do poder institucional para que a percepção possa garantir um sujeito produtivo, controlável, previsível, adaptável e que possa integrar-se socialmente, p.29. O autor fala também sobre os limites da atenção e das patologias derivadas da falta dela ou da impossibilidade em controlá-la, além do fracasso de inúmeras tentativas de controle da atenção ao longo do séc XIX.

Crary explica como a lógica da dinâmica do capital passou a impor um regime disciplinar de atenção, para o qual a desatenção passou a ser tratada como problema. Atribuía-se uma série de psicopatias ao funcionamento não convencional da atenção. “A atenção tornou-se assim, um modo impreciso de designar a capacidade relativa de um sujeito para isolar seletivamente certos conteúdos de um campo sensorial em detrimento de outros, a fim de manter um  mundo ordenado e produtivo”.

A proliferação de produtos eletrônicos garante que a docilidade provocada no sujeito esteja sempre ligada a padrões de consumo. Ao mesmo tempo, assistimos à expansão de outro nível de tecnologia disciplinar - “o uso generalizado de potentes psicotrópicos como estratégia de controle comportamental”.

Isso tudo nos parece familiar nos dias de hoje, quando a atenção parece algo difícil de se manter diante de inúmeras possibilidades que se apresentam. Desta forma, surge a necessidade de descobrir maneiras de educar e controlar a atenção.

Howard Rheingold
No livro Net Smart: How to Thrive Online, este é objeto de estudo de Howard Rheingold, que passou a observar seus alunos, pesquisar sobre o tema e a procurar outros pesquisadores que também investigavam o assunto, com o objetivo de encontrar respostas que pudessem ajudar a compreender melhor o atual momento que atravessamos. 

O autor analisa processos biológicos, cerebrais e cognitivos, além dos aspectos culturais, na tentativa de formar uma espécie de manual prático de comportamento, para garantir que estejamos atentos em nossa capacidade de controlar nossa atenção e evitar as distrações.

Rheingold acredita que podemos controlar a atenção através da regulação da respiração e da meditação, também por meio da definição de metas, pois a intenção e a manutenção do foco fazem com que tomemos decisões conscientes. Defende ainda a compreensão do processo de controle da atenção, através do controle executivo.

Há pontos comuns nos dois trabalhos, como a questão da atenção seletiva, quando vários processos sensoriais são inibidos para alcançar clareza, Rheingold descreve esta filtragem de estímulos como efeito Coquetel.




É importante descobrirmos a veracidade das informações, identificar e filtrar todo o lixo que recebemos e nos concentrarmos no que realmente for importante. Através da pesquisa dos autores podemos perceber a importância do desenvolvimento de uma literacia que nos auxilie a reconhecer armadilhas que possam estar por trás das tecnologias comunicacionais cada vez mais presentes em  nosso dia dia.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Caiu na rede é peixe

A observação do pensador marxista Walter Benjamin sobre o autor (e produtor de informações) estaria voltada para uma divisão de interesses e autonomia, considerando as diferenças do escritor burguês e escritor progressista. A liberdade de escrever o que quiser estaria delimitada de acordo com a função e o nicho do autor. Referenciando Tretiakov, Benjamin compara dois tipos de escritores, o operativo e o informativo: enquanto a função do segundo é apenas informar, “a missão do primeiro é não relatar, mas combater, não ser espectador, mas participante ativo”. Mergulhamos aqui em duas grandes dicotomias de teorias do jornalismo, a do espelho e a construcionista que trazem dois olhares distintos sobre produzir jornalismo. Por um lado, o jornalismo deve ser imparcial e relator fiel da realidade, sem dispor de opiniões, como se fosse um espelho a refletir exatamente o que acontece ali, enquanto o construcionista deve atuar ativamente na construção de uma sociedade melhor de forma a delimitar não apenas uma opinião, mas também nortear uma série de reflexões que possam fazer o mundo um lugar melhor.

O que temos agora é uma pluralização gigante de “jornalistas” construcionistas, que produzem conteúdo, promovem vínculos de identificação nos meios alternativos, porque muitas vezes vários grupos de minorias não são retratados como queriam na grande mídia. Sem entrar na grande questão filosófica se o que o conteúdo informativo produzido livremente pelas milhares de câmeras de celulares nas ruas, a fim de identificar um acontecimento social ou um acidente é ou não é jornalismo, o que temos aqui são produtores construcionistas de conteúdos que agem muitas vezes de forma operativa (parafraseando Benjamin) na sociedade. Isso só é possível porque vivemos em uma Cultura da Participação, onde todos são não só emissores de informação, mas também produtores de conteúdo, seja ele ficcional ou não. Dentro dessa Cultura da Participação, que é abarcada pela Cultura de Convergência, onde é possível filmar com o celular e postar logo na rede, ficamos sabendo quase que instantaneamente de incêndios, vemos vídeos produzidos pela galera da comunidade sem corte e delimitação de estereótipos e temos acesso a materiais ficcionais narrativos produzidos por fãs, que são muitas vezes até melhores do que as propostas originais.   

Sob o ponto de vista político, os meios digitais também estão transformando os espectadores em participantes. Isso pode ser observado nas manifestações de julho de 2013 e também em diversas outras questões do dia-a-dia. Em relação às manifestações, graças às mídias alternativas e produção de conteúdo independente dos próprios participantes vieram à tona novos olhares sobre a realidade das manifestações, que a princípio a grande mídia não dava total cobertura por questões políticas e pela amplitude do evento, onde seria impossível captar tudo que acontecia no meio da multidão.  Um bom exemplo é a atuação da Mídia Ninja nas manifestações, que norteava através da cultura da participação um enfoque e enquadramento diferente do convencional proporcionado pela grande mídia. Não só a Mídia Ninja, mas também produções de conteúdos independentes de qualquer pessoa que estivesse com o celular e observasse algo potencial de ser colocado na rede era postado na internet e se tornava conteúdo informativo. Outros exemplos rotineiros de como os espectadores também tornam participantes nos meios digitais é que qualquer postagem pode auxiliar demais receptores e atuar de forma a produzir uma crítica e buscar uma solução para um problema ao mesmo tempo: informes sobre problemas relativos ao trânsito, enchentes, buracos nas ruas, problemas no serviço público de saúde, corrupção, problemas relativos a segurança. Embora esse espaço-rede propicie um mundo de noticias falsas, fofocas ou verborragias desnecessária, é melhor ter uma rede livre do que algum tipo de controle sobre ela. No mundo Big Brother, o que cai na rede é peixe e muitas vezes esse peixe é saudável e não possui espinhos. Eles não só nadam em um mar de informações, mas purificam e reproduzem conteúdo em um oceano onde ocorrem poucas diferenciações de espécie: onde estamos todos juntos e misturados.


domingo, 7 de dezembro de 2014

A tentativa de ser herói

http://drauziovarella.com.br/noticias/por-que-o-consumo-de-ritalina-aumentou-tanto-no-brasil/

A notícia acima apresenta um dado crítico: o aumento do consumo de ritalina – remédio para déficit de atenção – em 800% na última década no Brasil. Apesar do remédio ser muitas vezes “demonizado” por pessoas que acreditam que ter déficit de atenção é normal, enquanto na verdade é um distúrbio (desenvolvendo um discurso preconceituoso sobre os usuários do medicamento e seus motivos) a atenção na sociedade contemporânea muitas vezes é tratada como uma obrigação. O sinal de alerta e produção máxima é cobrado rotineiramente pela sociedade contemporânea, que é cada vez mais competitiva e privilegia as “multipessoas”, que dão conta de várias funções em uma mesma carga de trabalho. Hoje não basta mais ser bom na sua área: tem que ter noção de todas as outras, estar conectado 24 horas por dia, saber o que se passa no jornal, estar sempre disposto a fazer o que for solicitado, dar cambalhota se necessário e não esboçar nenhuma forma o cansaço físico e mental. Nesse cenário, desatenção é sinônimo de preguiça, falta de interesse e resulta em queda de produção. Na tentativa de ser herói muitas pessoas acabam recorrendo desnecessariamente ao medicamento Ritalina, que funciona como uma estimulante do sistema nervoso e deixa a pessoa mais concentrada (um remédio, como citado por Dráuzio Varella, controlado e destinado para pessoas que possuem distúrbio de déficit de atenção). Os resultados podem muito ruins para as pessoas que recorrem ao medicamento sem realmente precisar e a causa dessa mutilação hepática desnecessária é uma castração cultural sobre qual o mercado de trabalho determina como nível de exigência, beirando a perfeição: não bastar ser humano, tem que ser herói com super poderes e condições que vão além das físicas naturais dessa espécie. Em alguns pontos do livro “Suspensões da Percepção”, o autor Jonathan Crary trabalha com o termo “atenção” como modo de interlocução de poder e critica estudos voltados para o DDAH sem profundidade, onde a desatenção é considerada algo catastrófico e ainda cita Foucault: “Já sugeri as formas assumidas pela atenção como um objeto relacionado à organização e ao controle concreto da educação e do trabalho. Nesse sentido, ela é inseparável do que Foucault descreveu como instituições ‘disciplinares’, mas é uma inversão de seu modelo panóptico, em que o sujeito é objeto da atenção e da vigilância. Daí a ideia moderna da atenção como uma sinal de reconfiguração desses mecanismos disciplinares”. Ainda dentro da temática, o pesquisador Howard Rheingold ressalta que a “atenção” nunca está sozinha: a intenção sempre anda de mãos dadas com ela. Portanto, quanto mais atraente for o objeto para mim e maior interesse eu tiver sobre ele, maior será minha atenção. E se hoje há um maior interesse e “atenção” voltada para a internet, para as mídias sociais e para as tecnologias é porque as pessoas possuem algum tipo de interesse por esses temas e por suas possibilidades. Em um mundo bombardeado com informações para todos os lados, Rheingold dá dicas em seu texto “Net Smart” de como podemos focar nossa atenção no que é relevante dentro de um mar de informações, sobretudo na era digital. Para sobrevivermos as possíveis tsumanis de dados que possam surgir, é necessário, segundo Rheingold, que façamos uma seleção para o direcionamento da nossa atenção, ou ao contrário estaremos perdidos. 

Ao contextualizar “atenção” e “intenção” como ideia proposta por Rheingold e o cenário contemporâneo que cobra o estado de alerta de super heróis com multipoderes, o que vemos é o aumento do consumo de Ritalina como uma ilustração da cobrança exacerbada de produção – o que vira uma bola de neve, pois o herói precisa da Ritalina, a Ritalina faz ele se tornar mais cansado e o cansaço resulta no próprio desinteresse. Será que se as metas não fossem diminuídas, ferramentas de motivação e participação fossem estabelecidas, o interesse e a atenção não voltariam sem a necessidade de “fonte mágica”? Pois é nessa terra contraditória de exigências que o super herói enfraquece e o homem desaparece. 


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Política e Internet

Acho importante primeiro situar o que Benjamin quer dizer com o "autor como produtor". A leitura do texto do filósofo, escrito no ano de 1934, mostra que uma de suas principais preocupações é refletir sobre a condição do autor - que ele trabalha também a partir de rubricas como o "escritor" e o "intelectual" - no interior da problemática que opõe o capitalismo e o socialismo - que ele pensa também a partir da dicotomia burgueses x proletariado. Ele se coloca abertamente quando, ao citar Brecht, diz que a "exigência fundamental" para o intelectual é "não abastecer o aparelho de produção, sem o modificar, na medida do possível, num sentido socialista" (p. 127).

Para Benjamin, se o autor quiser de fato superar a condição de mero repetidor das tendências burguesas (preso aos gêneros separados, afeito apenas a uma espécie de "fruição inerte e sem causa" e escravo de uma técnica que só existe em função da manutenção do controle dos meios pela burguesia), é preciso que ele passe a dominar a técnica, submetendo-a ao trabalho intelectual (que seria, para ele, como já colocamos, o de modificar o aparelho de produção na direção do socialismo). 'Dominar a técnica' significa, para Benjamin, saber manejar as funcionalidades do jornal, que passou a ser um dos pilares de propagação de ideias da burguesia.

Além disso, Benjamin coloca que para ele a "política correta" caminha em consonância com o "ponto de vista literário correto". "Correto" leia-se, novamente vale frisar, "em direção ao socialismo". O que significa que sem o domínio da técnica não há postura politicamente progressista.

"O autor como produtor" de Benjamin seria, então, aquele que supera a postura de relator ou espectador passivo e parte para uma postura de combate e participação ativa, no interior da produção e no manejo da técnica (p. 123).

E então passamos para a segunda questão: Os meios digitais estão transformando os espectadores em participantes também do ponto de vista político? Para responder a essa questão, precisamos situar o que entendemos como "política". A palavra vem do grego e carrega o sentido duplo de significar tanto aquilo que se refere aos "cidadãos" quanto à organização das "cidades-Estado". Importante colocar isso porque nos remete ao grande debate do mundo contemporâneo, qual seja, o de até que ponto o sistema representativo institucional dos poderes legislativo e executivo traduz de fato o que é a palavra "política".

Muitos autores têm pensado a questão.Giorgio Agamben, Jacques Rancière e MD Magno, dentre outros. Todos chamando a atenção, cada um à sua maneira, para o fato de que a política não se resume às instâncias representativas tradicionais. A prova disso pode ser verificada nas diversas manifestações de rua que ocorreram nos últimos anos. Entretanto, apesar de procedente, situar a questão a partir dessas passeatas pode ser perigoso, porque pode dar a entender que elas seriam a grande novidade no que se refere à política como algo mais que os partidos políticos. E nos parece que há mais que isso.

No fundo, sempre houve uma política do cotidiano, uma política do desejo, uma política da arte, enfim, uma política que funciona para além dos partidos políticos e das instituições tradicionais. Ser "cidadão" sempre foi mais que apenas votar ou fazer parte de um sindicato. Além disso, devemos inclusive pensar até que ponto a própria palavra "cidadão" não acaba levando a pensar a questão de uma forma segmentada. Os estudos recentes na área de teoria da arquitetura, por exemplo, já trabalham com noções articuladas de "cidade" e "pessoa" (ver sobre isso, por exemplo, o trabalho de Rosane Araújo, "A cidade sou eu"), assim como com ideias como a de "habitar a mobilidade", do filósofo francês Hervé Regnaud, que coloca em questão a noção clássica de "lugar" a partir das mudanças trazidas pelo cenário dito "globalizado" (e que certamente pode ser estendida ao campo dos meios digitais). O cidadão de hoje não apenas vota, mas exercita sua cidadania ao navegar na rede; não apenas se inscreve na lógica de salários e rendimentos do capitalismo, mas modifica a cidade no que escolhe certos roteiros de diversão e fruição artística; enfim, não apenas colabora (ou não) com a vida em sociedade, de uma forma ou de outra, mas também com o seu desejo - o que muitas vezes se articula de forma inevitável com a vida em sociedade. Fundamentalmente, temos o poder substantivo, dos presidentes, generais e reis, mas temos, também, como coloca MD Magno, o poder como verbo, o poder de cada um (ou de cada formação). A política é, assim sendo, um jogo de incessantes confrontos e interconexões entre esses dois tipos de poderes.

Parte fundamental desse jogo é jogada nos meios digitais. As chamadas "redes sociais", por exemplo, não são apenas redes de relacionamento privado, mas também verdadeiras arenas de confrontos políticos, de ideias das mais variadas procedências e nuances. A ponto de alguns analistas defenderem, por exemplo, que, sem a internet, Dilma Rousseff não teria vencido a eleição no Brasil, diante do fato de que as redes sociais serviram para contrapor a série de denuncismo vazio que geralmente ocorre nas épocas eleitorais na chamada "grande imprensa", em favor do PSDB. Além disso, vale colocar ainda que a internet é uma formação política por essência, na medida em que acolhe toda e qualquer manifestação, das mais banais às mais sofisticadas, das mais ingênuas às mais escabrosas. E aí entra uma reflexão que acho válida em cima do texto de Benjamin.

Em certo momento, quando coloca a questão da fotografia - dentro do contexto da relação entre ténica e política, a partir de sua perspectiva -, Benjamin traz o exemplo da legenda.  E diz que "temos que exigir dos fotógrafos a capacidade de colocar em suas imagens legendas explicativas que as liberem da moda e lhes confiram um valor de uso revolucionário" (p. 129). E condiciona isso ao fato de que os autores precisam aprender a fotografar, para que seja superada a fronteira técnica que separa a escrita da imagem.

Benjamin alertava para um ponto que é fundamental e que serve ainda mais no mundo contemporâneo: não existe imagem sem escrita e escrita sem imagens. E os meios digitais, como sabemos, levam essa realidade a patamares ainda mais amplos. Porém, no meu entendimento, o grande problema com a abordagem benjaminiana é justamente o fato de que, para ele, a função da legenda estaria em seu caráter "explicativo" em relação à foto. Benjamin parte de uma separação rígida entre "diversão passiva" de um lado e "participação ativa" de outro, para propor que o autor só é produtor quando gera algum tipo de intervenção explicativa que desloca o espectador de sua posição "burguesa", ou seja, de fruição inerte - e desconectada da percepção das "relações de produção" (no sentido marxista da expressão). Faz sentido diante da perspectiva socialista do autor, mas não parece caber no campo das mídias digitais.

Por outro lado, seria também apressado conferir às mídias digitais um potencial "participativo" intrínseco. Elas estão inseridas nos mesmos jogos de força que sempre permearam as relações políticas, desde os gregos: grupos (ou formações) mais poderosos(as) versus grupos (ou formações) menos poderosos(as), em constante guerrilha, em várias frentes de batalha. Há, portanto, de fato, grupos mais "passivos" e outros mais "ativos". A questão é que essas batalhas nunca foram absolutamente verticais, em nenhuma época. As formações mais poderosas sempre contaram com a aquiescência - e o fermento - das menos poderosas para manterem seu poder. E, em certo sentido, as formações menos poderosas sempre vislumbraram algum tipo de poder a mais nesse exercício de aquiescência. O referente de Benjamin, que é básica e tipicamente marxista, não permite enxergar esse ponto, porque parte de uma divisão rígida entre "burgueses" de um lado e "proletariado" de outro. E a rede - inclusive naquilo que ela constrói de interseção com as ruas - não funciona a partir desse referente.

Portanto, qual seria a resposta diante da pergunta que questiona se os meios digitais estão transformando os espectadores em participantes também do ponto de vista político? Acho que primeiro precisamos refletir se, diante da lógica política da rede, podemos mesmo trabalhar com a ideia de "espectadores". Se a política é a ampliação dos poderes-enquanto-verbos, e se a internet é acolhedora da diversidade desses poderes, então ela é política em sua essência. Não no sentido socialista que Benjamin prezava; mas sim no sentido da criação de várias possibilidades de interseção entre os poderes e entre as linguagens. Inclusive, por exemplo, a possibilidade da escolha de uma aparente "passividade" que entretanto "ativa" outras frentes - o que coloca em cena a lógica da "razão cínica" trazida por outro alemão, o também filósofo Peter Sloterdijk, e que é uma das facetas do mundo atual.

Talvez isso sirva inclusive pra repensar a separação rígida que existe entre socialismo e capitalismo. A internet possui uma estrutura de funcionamento que parece ser socialista e capitalista ao mesmo tempo. "Socialista" na medida em que coloca as diferenças em contato através de um meio comum; e "capitalista" no sentido de que estabelece esse contato a partir de uma lógica de trocas e re-valorações que acaba sendo um inesgotável "mercado de ideias" - inclusive no sentido financeiro. Essa talvez seja a grande política dos meios digitais. Política que cabe bem no conceito de revirão, de MD Magno.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Considerando as especificidades dos pontos de vista dos dois autores discutidos, Crary e Rheingold, escreva uma reflexão sobre os mecanismos de atenção na sociedade moderna e contemporânea.